O que escrevo quando o dia termina
Tenho um caderno de capa moles que cabe no bolso de trás. É pequeno, com folhas pautadas e uma capa de tecido azul escuro que já está gasta nas bordas. Comprei-o numa papelaria perto da estação de comboios em Roterdão, há quatro anos. Ainda não acabei.
À noite, antes de dormir, abro-o e escrevo três ou quatro frases. Nada dramático. Apenas o que ficou na memória do dia. Às vezes é uma coisa que vi. Às vezes é uma coisa que alguém disse. Às vezes é apenas uma sensação que não consigo nomear de outra forma.
Como começou
Comecei a fazer isto quando percebi que os dias estavam a passar demasiado depressa. Acordava, fazia coisas, ia para a cama e no dia seguinte já não me lembrava do que tinha feito. Não era esquecimento. Era falta de atenção.
Um amigo holandês que vive em Lisboa há muitos anos contou-me que ele também escreve. Não um diário. Apenas uma linha por dia. Disse que, ao fim de alguns anos, se consegue ver padrões. Coisas que se repetem. Coisas que mudam.
Não sei se vou conseguir ver padrões. Mas gosto da ideia de que, se um dia quiser lembrar-me de como era este período da minha vida, tenho estas frases.
Não escrevo para guardar memórias. Escrevo para prestar atenção ao que está a acontecer enquanto está a acontecer.
O que escrevo hoje
Hoje escrevi isto:
"A senhora do mercado disse que as laranjas de Fevereiro têm um sabor diferente. Comprei seis. À noite, enquanto descascava uma, lembrei-me de como cheirava a casa da minha avó quando ela fazia compota. Não é a mesma coisa, mas é parecido."
É só isto. Não expliquei mais. Não disse o que senti. Apenas registei.
Outros dias
Alguns dias escrevo mais. Outros menos. Há dias em que não escrevo nada. Se não houver nada que queira lembrar, não forço.
Há duas semanas escrevi sobre o gato que vi a dormir no parapeito. Há três semanas escrevi sobre a conversa com o peixeiro sobre caldeirada. Há um mês escrevi sobre a luz da tarde a entrar pela janela da sala e como as sombras das plantas se mexiam na parede.
Nada disto é importante para ninguém além de mim. E talvez nem para mim seja importante. Mas quando releio, depois de algum tempo, sinto que o tempo passou de outra forma. Mais devagar. Mais cheio de pormenores.
Por que não uso o telemóvel
Já experimentei escrever no telemóvel. Não funciona da mesma forma. O telemóvel tem notificações, tem outras aplicações, tem a tentação de verificar algo. O caderno não tem nada disso. É só papel e caneta.
Quando abro o caderno, não há nada para fazer além de escrever ou não escrever. Essa simplicidade é importante.
O que acontece quando releio
De vez em quando abro o caderno ao acaso e leio uma frase de meses atrás. Quase sempre me surpreendo. Não me lembro de ter escrito aquilo. Não me lembro do dia. Mas a frase está lá, e de alguma forma traz o dia de volta.
Não é uma memória completa. É apenas um fragmento. Mas é suficiente para me lembrar que aquele dia existiu, que eu estava lá, que vi ou senti algo.
Isso é o suficiente.
Continuar
Não sei quanto tempo vou continuar a fazer isto. Não fiz nenhuma promessa a mim próprio. Apenas abro o caderno à noite e, se houver algo para escrever, escrevo.
Hoje foi sobre as laranjas. Amanhã pode ser sobre outra coisa. Ou pode não ser nada.
E isso também está bem.
— Fim da entrada