Entrada • 12 de Março de 2026

Como começa o meu dia quando não há reuniões marcadas

Acordo quase sempre antes das sete. Não uso despertador. A luz que entra pela janela do quarto, mesmo com as cortinas corridas, é suficiente para me tirar do sono. Em Roterdão acordava com o ruído dos elétricos e o zumbido baixo dos carros na autoestrada. Aqui, em Portugal, o primeiro som é quase sempre um pássaro ou o vento a mexer nas persianas.

Levanto-me devagar. Não há pressa. A casa ainda está fresca da noite. Calço os chinelos de feltro que comprei no mercado há dois anos e desço as escadas. A cozinha fica no rés-do-chão, virada a nascente. É a divisão mais clara da casa pela manhã.

Preparar o café tornou-se o primeiro gesto consciente do dia. Não é ritual. É apenas fazer as coisas com as mãos e com atenção.

A cafeteira italiana que trouxe de casa é já antiga. Tem manchas de uso e o cabo de baquelite está um pouco gasto. Encho o fundo com água até à válvula, coloco o funil e duas colheres bem cheias de café moído que compro no armazém do senhor António, perto da praça. Não mudo de marca há três anos. Gosto do sabor forte e ligeiramente amargo que fica.

Enquanto o café sobe, abro a janela. O ar da manhã entra frio e limpo. Sento-me à mesa de madeira que serve de ilha. A mesa tem marcas de faca e círculos de copos antigos. Não a lixei nem pintei. Gosto das histórias que as marcas contam.

O que faço enquanto espero

Não pego no telemóvel logo de manhã. Deixei de fazer isso há cerca de dois anos. Em vez disso, observo. Observo a luz a mudar na parede branca da cozinha. Observo o vapor que sai da cafeteira. Observo as sombras das folhas da planta que está no parapeito.

Às vezes escrevo uma frase no caderno que deixo sempre aberto na mesa. Outras vezes apenas fico sentado. Cinco minutos. Talvez dez. Não conto.

Quando o café está pronto, sirvo numa chávena de cerâmica que também trouxe dos Países Baixos. Tem um pequeno defeito no vidrado, um ponto onde a cor não pegou bem. Gosto desse defeito.

Bebo o primeiro gole devagar. Sinto o calor na boca, depois na garganta. Depois sento-me mais direito na cadeira. É como se o corpo acordasse por dentro.

Depois do café

Não faço plano nenhum. Às vezes leio algumas páginas de um livro que deixei na mesa na noite anterior. Outras vezes saio para o pequeno pátio dos fundos e fico ali de pé, a olhar para as plantas que plantei no ano passado: alecrim, tomilho, uma pequena oliveira num vaso grande.

Se o dia está claro, como hoje, sento-me no degrau de pedra que dá para o pátio e deixo o sol bater no rosto. Não fecho os olhos. Apenas deixo a luz entrar. Cinco minutos. Às vezes mais.

Hoje, enquanto estava ali, lembrei-me de uma coisa que o senhor António me disse no mercado na semana passada. Ele falava de uma variedade de laranja que só aparece em Fevereiro e Março. Disse que tem um sabor diferente, mais ácido e mais perfumado. Anotei mentalmente para experimentar quando for na quinta-feira.

Não há objetivo. Não há meta. Apenas o que acontece quando se começa o dia sem decidir de antemão o que vai acontecer.

Por que isto importa para mim

Durante muitos anos vivi de reunião em reunião, de e-mail em e-mail. Acordava já a pensar no que tinha de fazer. O dia começava antes de eu estar verdadeiramente acordado. Quando mudei a forma como começo a manhã, mudei também a forma como o resto do dia se desenrola.

Não é que o dia se torne perfeito. Há dias em que chove, em que me sinto cansado, em que as coisas não correm como eu gostaria. Mas a diferença está no ponto de partida. Quando começo devagar, tenho mais espaço para escolher como continuar.

Hoje, depois do café e do pátio, vou ao mercado. Quero ver se já chegaram as laranjas de que o senhor António falou. Se não, compro o que parecer bom e invento algo na hora. Talvez uma salada simples com azeite e um pouco de flor de sal que guardo num frasco de vidro.

O dia segue. Sem pressa. Sem lista. Apenas o que parece fazer sentido no momento.

— Fim da entrada