Entrada • 27 de Fevereiro de 2026

Caminhar sem destino pela cidade velha

Algumas tardes saio de casa sem mapa, sem destino e sem tempo marcado para regressar. Apenas calço os sapatos confortáveis, fecho a porta e começo a andar. Não escolho a direção de antemão. Deixo que as ruas me levem.

A cidade velha tem uma forma que não obedece a planos. As ruas sobem e descem, dobram-se sobre si mesmas, acabam em escadas ou em praças pequenas que aparecem de surpresa. É fácil perder-se. E é exatamente por isso que gosto de caminhar assim.

O primeiro desvio

Hoje saí por volta das quatro da tarde. O sol já estava baixo e a luz era dourada. Segui pela rua principal durante algum tempo, depois virei à esquerda numa rua mais estreita que nunca tinha explorado. Havia roupa pendurada nas janelas e o cheiro a comida a sair de uma casa.

Subi uma escada de pedra que parecia antiga. No topo havia uma pequena praça com um banco de azulejo e uma árvore no meio. Sentei-me. Não havia ninguém. Apenas o som distante do trânsito e o vento a mexer nas folhas.

Fiquei ali uns minutos. Não fiz nada. Apenas olhei para as fachadas das casas à volta. Algumas têm azulejos partidos, outras estão recentemente pintadas. Há janelas com cortinas de renda e outras com persianas de madeira fechadas. Cada uma conta uma história diferente.

Quando se caminha sem destino, o que se encontra não é um lugar. É uma forma de estar presente que não existe quando se tem pressa.

O que se vê quando se vai devagar

Quando se caminha com um objetivo, vê-se apenas o que está no caminho. Quando se caminha sem objetivo, vê-se tudo o resto. Os pormenores que normalmente passam despercebidos.

Hoje vi uma porta de madeira com uma aldraba de ferro em forma de mão. Vi uma varanda cheia de vasos com plantas que pareciam cuidadas com atenção. Vi um gato a dormir no parapeito de uma janela, com o sol a bater-lhe nas costas. Vi um velho a arrumar caixas de garrafas vazias à porta de um café.

Nada disto é extraordinário. Mas quando se para para olhar, torna-se notável.

Encontrar pessoas

Às vezes encontro pessoas com quem falo. Hoje não foi um dia de conversa. Mas já aconteceu. Uma vez uma senhora mais velha perguntou-me se eu estava perdido. Disse que não, que estava apenas a andar. Ela sorriu e disse que também fazia isso quando era nova. Depois contou-me que a praça onde estávamos se chamava praça do poço, porque antigamente havia um poço no centro.

Não sei se era verdade. Mas gostei da história. E gostei de ter parado para ouvir.

O regresso

Quando decido regressar, não volto pelo mesmo caminho. Tento encontrar uma rota diferente. Hoje desci por uma rua que dava para o rio. O sol estava quase a desaparecer atrás dos telhados. A água refletia o céu cor de laranja.

Parei num ponto onde dava para ver o outro lado da cidade. As luzes já começavam a acender-se nas casas. Fiquei ali até o céu ficar mais escuro.

Quando cheguei a casa, já eram quase sete. Não tinha fome. Mas preparei uma chávena de chá e sentei-me à mesa da cozinha com o caderno. Escrevi três frases sobre a porta com a aldraba em forma de mão e sobre o gato no parapeito.

Por que isto se tornou importante

Em Roterdão eu andava muito. Mas andava sempre com um destino. Ia de casa para o escritório, do escritório para uma reunião, da reunião para casa. Os trajetos eram funcionais. Não havia espaço para desvios.

Quando comecei a caminhar sem destino em Portugal, percebi que estava a recuperar algo que tinha perdido. A capacidade de me surpreender. A capacidade de descobrir coisas sem as procurar ativamente.

Não é que estas caminhadas resolvam problemas ou tragam ideias brilhantes. Não é isso. É mais simples. É que, durante o tempo em que caminho, não estou a fazer nada além de caminhar. E isso, por si só, já é raro.

Quando regresso, trago comigo uma espécie de calma que não existia antes de sair. E isso é suficiente para o resto do dia.

— Fim da entrada