O que encontro no mercado de quinta-feira
Vou ao mercado municipal quase sempre na quinta-feira de manhã. Não é uma regra. É apenas o dia em que me apetece mais. Chego por volta das nove e meia. O mercado já está cheio de gente, mas não está caótico. Há espaço para circular, para parar e olhar.
Não faço lista. Nunca faço. Entro e deixo-me levar pelo que vejo, pelo que cheira bem e pelo que as mãos das pessoas que vendem parecem ter tratado com respeito. Há algo de reconfortante em não saber de antemão o que vou trazer para casa.
O primeiro círculo
Faço sempre o mesmo percurso. Primeiro as bancas de fruta e legumes. Depois o peixe. Depois o queijo e os enchidos. Por último as flores, se estiverem bonitas. Não compro flores todas as semanas. Apenas quando alguma cor me chama a atenção.
Hoje, na primeira banca que parei, havia couve-flor. Não qualquer couve-flor. Estas tinham as folhas ainda verdes e frescas, e as cabeças eram compactas e pesadas. A senhora que atendia sorriu quando me viu olhar. Perguntou se queria uma. Disse que sim, mas só depois de ver o resto.
Segui. Encontrei espinafres frescos, com a terra ainda agarrada às raízes. Comprei um molho. Depois nabos pequenos, daqueles que parecem ter sido colhidos de manhã. Comprei seis. Não sabia ainda o que ia fazer com eles, mas pareciam pedir para ir comigo.
Quando não se sabe o que se vai cozinhar, o mercado torna-se uma espécie de conversa. Os ingredientes sugerem. Eu apenas ouço.
O peixe e a conversa
Na zona do peixe parei mais tempo. Gosto de ver como os peixeiros arrumam as peças, como falam dos que chegaram hoje e dos que chegaram ontem. Hoje havia robalo fresco e também dourada. Escolhi dois robalos pequenos. O peixeiro limpou-os na hora, sem eu pedir. Disse que assim ficavam melhores para grelhar.
Falámos um pouco. Ele perguntou se eu era holandês. Disse que sim, mas que já cá estava há algum tempo. Ele riu e disse que já tinha percebido pelo sotaque. Depois perguntou se eu sabia fazer caldeirada. Disse que não, mas que gostaria de aprender. Ele deu-me uma ideia rápida: cebola, alho, batata, tomate e o peixe por cima, tudo cozido devagar. Anotei mentalmente.
O que não compro
Há coisas que já não compro. Não compro produtos embalados em plástico quando posso evitar. Não compro fruta fora de época se não for necessária. E não compro coisas só porque estão em promoção. Aprendi que, se não sei o que fazer com uma coisa, provavelmente não a devo levar.
Hoje quase comprei uns pimentos vermelhos bonitos, mas depois pensei que já tinha couve-flor e espinafres e que talvez fosse melhor não misturar demasiados sabores. Deixei-os ficar.
Em casa
Cheguei a casa por volta das onze. Deixei as compras na mesa da cozinha e sentei-me um momento. Depois comecei a preparar.
Os nabos foram assados no forno com um pouco de azeite e sal. A couve-flor foi cortada em pedaços grandes e também assada, com cominhos que tenho num frasco. Os espinafres foram salteados rapidamente com alho. O robalo foi grelhado na frigideira de ferro que aquece bem.
Não segui nenhuma receita. Apenas juntei o que tinha e o que me pareceu que combinava. O resultado foi simples: peixe grelhado, legumes assados e uma salada rápida de espinafres. Comi devagar, à mesa, com a janela aberta.
Depois de comer, guardei o que sobrou. Os legumes assados ficam bem no dia seguinte. O peixe também, se não passar muito tempo.
Por que o mercado me interessa
Não é só pela comida. É pela forma como o mercado me obriga a estar presente. Não posso ir com a cabeça noutro lado. Tenho de olhar, cheirar, tocar, falar com as pessoas. É um momento em que saio de dentro da minha cabeça e entro no mundo que está à minha frente.
Quando cheguei a Portugal, o mercado era um sítio onde me sentia estrangeiro. Não sabia os nomes das coisas, não sabia como pedir, não sabia o que era normal comprar. Agora já sei algumas coisas. Sei que a senhora da banca do meio tem os melhores tomates. Sei que o peixeiro da esquerda gosta de conversar sobre o tempo. Sei que se for tarde demais, alguns produtos já não estão lá.
Mas o mais importante é que ainda descubro coisas novas. Como a variedade de laranja de que o senhor António me falou. Ou uma erva aromática que nunca tinha visto. Ou uma forma diferente de preparar algo que eu já fazia há anos.
O mercado não é um sítio para comprar comida. É um sítio para continuar a aprender como viver aqui, devagar, prestando atenção ao que muda com as estações.
— Fim da entrada